Fim das bets abre nova frente na saúde pública: governo prepara busca ativa por apostadores com problemas de jogo
Ministério da Saúde afirma que vai ampliar a identificação e o acompanhamento de pessoas com comportamento de jogo problemático após anúncio do encerramento das apostas on-line no país. Atendimento poderá envolver Meu SUS Digital, teleatendimento e a Rede de Atenção Psicossocial.
![]() |
Ministério da Saúde pretende ampliar a identificação e o atendimento de pessoas com comportamento problemático relacionado às apostas. |
O anúncio do fim das apostas on-line autorizadas no Brasil abriu uma nova frente para a saúde pública. O Ministério da Saúde informou que pretende ampliar a busca ativa por pessoas com comportamento de jogo problemático, oferecendo acompanhamento e tratamento quando houver necessidade.
A medida foi detalhada pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, em 25 de setembro de 2026, após o governo anunciar uma medida provisória que prevê o encerramento das operações das chamadas bets. Segundo a Agência Brasil, o trabalho de identificação de apostadores em situação de risco não começa agora: ações desse tipo já vinham sendo realizadas desde dezembro de 2025.
O tema ganha importância porque os impactos das apostas não se limitam às finanças pessoais. O comportamento de jogo problemático pode estar associado a prejuízos familiares, sociais e de saúde mental, e o SUS já vinha estruturando serviços específicos para esse público.
O que significa “busca ativa” de apostadores?
Busca ativa significa que o sistema público não ficará apenas esperando que a pessoa procure atendimento por conta própria.
Segundo o Ministério da Saúde, dados relacionados ao comportamento de apostas já vêm sendo compartilhados entre órgãos públicos para ajudar na identificação de pessoas que podem apresentar sinais de maior vulnerabilidade. O ministro afirmou que essas informações circulam em ambiente protegido, seguindo as regras da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e os princípios de confidencialidade aplicáveis à área da saúde.
A pasta pretende intensificar esse trabalho depois do fim das bets.
Até agora, porém, o governo ainda não divulgou todos os detalhes sobre como será o novo fluxo de contato, quais critérios exatos serão utilizados ou em que data a ampliação começará efetivamente.
Esse ponto é importante: a estratégia foi anunciada, mas parte de sua operacionalização ainda precisa ser detalhada.
Meu SUS Digital poderá ser uma das portas de entrada
Uma das estruturas que já existem é o atendimento por meio do Meu SUS Digital.
O sistema possui uma ferramenta voltada a pessoas que enfrentam problemas relacionados a jogos de aposta. O usuário pode responder a um autoteste e, dependendo do resultado, ser direcionado para atendimento em saúde mental.
No fluxo já utilizado pelo SUS, pessoas identificadas com risco moderado ou elevado podem ser encaminhadas automaticamente para teleatendimento.
Outros casos podem ser orientados para serviços presenciais da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), incluindo:
Unidades Básicas de Saúde;
Centros de Atenção Psicossocial;
serviços especializados de saúde mental;
atendimento multiprofissional;
teleatendimento.
O objetivo é criar uma linha de cuidado que não dependa exclusivamente de atendimento presencial.
SUS já vinha ampliando atendimento para problemas com apostas
A atuação do SUS nessa área começou antes da decisão de encerrar as bets.
Em audiência no Senado, representantes do Ministério da Saúde informaram que o teleatendimento específico para pessoas com problemas relacionados a apostas começou a ser estruturado em 2026.
O serviço passou a utilizar o Meu SUS Digital como porta de entrada, com autoteste e direcionamento de acordo com o nível de risco identificado.
Dados apresentados no Senado em setembro indicaram que já haviam sido realizados mais de 18 mil atendimentos dentro da estratégia de teleatendimento em saúde mental relacionada a jogos e apostas.
A pasta também desenvolveu uma Linha de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, além de cursos para capacitação dos profissionais do SUS.
Plataforma de autoexclusão teve mais de 650 mil pedidos
Outro instrumento criado anteriormente pelo governo foi a Plataforma Centralizada de Autoexclusão.
A ferramenta permite que a própria pessoa solicite o bloqueio do acesso às plataformas de apostas autorizadas e deixe de receber publicidade direcionada durante o período escolhido.
Segundo o Ministério da Fazenda, até junho de 2026 já haviam sido registrados mais de 650 mil pedidos de autobloqueio.
A plataforma também oferece informações sobre riscos financeiros e comportamentais, autoteste relacionado à saúde mental e orientação sobre locais de atendimento do SUS.
![]() |
Meu SUS Digital e o teleatendimento estão entre os recursos utilizados para orientar pessoas com problemas relacionados aos jogos de aposta. |
Por que as apostas passaram a ser tratadas como questão de saúde?
O chamado transtorno do jogo é reconhecido como um problema relacionado a comportamento aditivo.
Segundo informações apresentadas por representantes do Ministério da Saúde no Congresso, os casos podem envolver perda de controle sobre o ato de apostar, prioridade crescente dada ao jogo e manutenção do comportamento mesmo diante de prejuízos pessoais, familiares ou financeiros.
O problema também pode aparecer junto com outras condições, como ansiedade, depressão, uso problemático de álcool e outras formas de sofrimento psíquico.
Isso não significa que toda pessoa que realizou apostas tenha um transtorno.
O diagnóstico depende de avaliação adequada, e as estimativas populacionais não devem ser usadas para diagnosticar indivíduos.
Atendimentos relacionados ao jogo cresceram no SUS
Dados apresentados pelo Ministério da Saúde e reproduzidos pelo Senado apontam crescimento expressivo dos atendimentos relacionados ao jogo patológico nos últimos anos.
Segundo o governo, entre 2018 e 2025, os atendimentos no SUS por questões ligadas ao jogo patológico cresceram cerca de 140%.
Representantes da área da saúde também relataram aumento das internações psiquiátricas associadas ao transtorno do jogo, reforçando a preocupação com o impacto do problema na rede pública.
Estudo estima custo social bilionário
Na apresentação das novas medidas, o ministro da Saúde citou um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, realizado em parceria com outras entidades, que estimou o custo social e sanitário associado às apostas em até R$ 38,8 bilhões por ano.
Esse número é uma estimativa econômica, não uma despesa diretamente registrada no orçamento do SUS.
O estudo considera diferentes tipos de impacto social e de saúde relacionados ao comportamento de apostas.
Por isso, o dado deve ser interpretado como uma projeção sobre efeitos amplos na sociedade, e não como valor efetivamente gasto pelo governo em tratamentos.
O que acontece agora com as bets?
A medida anunciada pelo governo estabelece uma transição para o encerramento das plataformas autorizadas.
Segundo as regras divulgadas:
novos depósitos e apostas deixam de ser aceitos;
os usuários terão prazo para retirar voluntariamente os valores disponíveis;
os sites deverão começar a sair do ar em 6 de outubro;
saldos que não forem retirados no prazo serão devolvidos por meio do sistema financeiro;
o processo de devolução está previsto para ocorrer durante outubro.
A mudança cria um cenário novo para milhares de usuários que utilizavam regularmente essas plataformas.
É justamente nesse período de transição que o Ministério da Saúde pretende reforçar ações de acolhimento.
Família também poderá receber orientação
O atendimento não deve se limitar à pessoa que aposta.
Segundo o Ministério da Saúde, familiares também poderão ser orientados por meio dos serviços de saúde mental e teleatendimento.
Isso é relevante porque problemas relacionados ao jogo podem afetar orçamento familiar, relacionamentos e rotina doméstica.
A orientação dos serviços de saúde é procurar ajuda quando o comportamento começa a provocar perda de controle ou prejuízos importantes na vida pessoal.
Como procurar ajuda pelo SUS
Quem já enfrenta dificuldades relacionadas a apostas pode procurar atendimento independentemente da nova política de busca ativa.
Uma das alternativas disponíveis é acessar o Meu SUS Digital, onde existe um serviço específico relacionado a problemas com jogos de apostas.
Também é possível procurar:
Unidade Básica de Saúde;
CAPS da região;
serviços da Rede de Atenção Psicossocial;
atendimento de saúde mental do SUS.
Em situações de urgência ou risco imediato à vida, o SAMU atende gratuitamente pelo número 192, inclusive em emergências psiquiátricas e tentativas de suicídio.
Nova fase começa depois do fim das plataformas
O encerramento das bets não elimina automaticamente os problemas que surgiram durante anos de expansão das apostas on-line.
A nova estratégia de saúde pública tenta enfrentar justamente essa consequência: localizar pessoas com sinais de comportamento problemático, ampliar acesso ao atendimento e integrar informações de diferentes áreas do governo.
Ainda faltam detalhes sobre como a busca ativa será executada em larga escala.
O que já está confirmado é que o SUS possui atualmente ferramentas de teleatendimento, autoteste, orientação digital e serviços presenciais voltados a esse tipo de situação — e que o Ministério da Saúde pretende ampliar esse trabalho com a mudança nas regras das apostas.
Fontes consultadas
Agência Brasil — “Saúde fará busca ativa de apostadores após fim das bets”, publicada em 25 de setembro de 2026.
Agência Brasil — informações sobre o cronograma para encerramento das plataformas e devolução de valores.
Ministério da Fazenda — Plataforma Centralizada de Autoexclusão e ações de proteção aos apostadores.
Senado Federal — informações apresentadas sobre teleatendimento, SUS e tratamento de problemas relacionados aos jogos de aposta.
Ministério da Saúde — informações oficiais sobre o SAMU 192.
Nota Editorial e Transparência
Conteúdo informativo elaborado a partir de informações públicas, documentos oficiais e fontes jornalísticas de referência. Informações de saúde apresentadas nesta matéria têm caráter educativo e não substituem avaliação de profissionais de saúde. Este artigo pode conter anúncios do Google AdSense.
.png)
.png)
Comentários
Postar um comentário
Deixe sua opinião! Adoramos ler os comentários de vocês. Pedimos apenas que respeitem os outros leitores e evitem ofensas ou palavrões. Comentários que descumprirem as regras serão removidos.