Infantino contra a parede: crise na Fifa abre caminho para tentativa de afastamento do presidente

Plano para entregar parte dos negócios da Copa do Mundo a investidores privados foi cancelado, mas revolta de confederações ameaça o futuro político de Gianni Infantino.

Arte: Na Trama (com fotos de Reprodução/Getty Images)


Gianni Infantino enfrenta a crise mais delicada desde que assumiu a presidência da Fifa, em dois mil e dezesseis. O dirigente desistiu de um projeto bilionário envolvendo investidores privados, mas o recuo não foi suficiente para encerrar a revolta.

A Uefa declarou publicamente que perdeu a confiança na atual liderança da Fifa. A Concacaf também cobrou transparência, responsabilização e uma revisão profunda da maneira como a entidade é administrada. Agora, o debate deixou de ser apenas sobre o projeto cancelado e passou a envolver a permanência de Infantino no comando.

Até o momento, porém, nenhum processo formal de afastamento foi confirmado. O que existe é uma articulação política crescente, capaz de provocar uma renúncia, uma votação extraordinária ou uma disputa real na eleição de dois mil e vinte e sete.

O plano bilionário que provocou a crise

A proposta de Infantino previa a criação da Fifa Forward Enterprise, empresa que concentraria atividades comerciais e operacionais de competições como a Copa do Mundo e o Mundial de Clubes.

A Fifa manteria o controle da companhia, mas uma participação minoritária seria oferecida a investidores privados. A operação poderia arrecadar aproximadamente US$ 4,2 bilhões, cerca de R$ 21,5 bilhões, segundo os valores divulgados pelo ge.

Isso não significava vender literalmente a Copa do Mundo. O projeto envolveria uma participação nos negócios e receitas gerados pelas principais competições da entidade.

A Fifa argumentava que o dinheiro seria usado para ampliar programas de desenvolvimento do futebol. Segundo a Reuters, Infantino chegou a informar que cada associação poderia receber US$ 40 milhões caso o projeto avançasse.

O problema foi a forma como a proposta apareceu. A Concacaf afirmou que não houve consulta adequada aos órgãos responsáveis, que o prazo era curto e que a iniciativa avançou sem a análise esperada do Conselho da Fifa.

Foto: Imagem Ilustrativa / Na Trama


Infantino desistiu, mas a pressão aumentou

Diante da resistência, Infantino anunciou em trinta e um de julho que a proposta não seguiria adiante. No comunicado oficial, ele reconheceu que o projeto havia criado divisões e prometeu reunir novamente as partes interessadas.

O recuo evitou uma ruptura imediata, mas não recuperou a confiança das confederações.

As cinquenta e cinco associações ligadas à Uefa rejeitaram o projeto de forma unânime. Em uma manifestação incomumente dura, a entidade europeia afirmou que a liderança da Fifa perdeu sua confiança e declarou que nenhuma alternativa deve ser descartada durante a revisão do episódio.

A Concacaf foi igualmente incisiva. A confederação avaliou que o projeto avançou fora dos mecanismos normais de governança e pediu uma ampla prestação de contas sobre a presidência.

Infantino pode realmente ser afastado?

A pressão das confederações não retira automaticamente Infantino do cargo. A Fifa é composta por duzentas e onze associações nacionais, cada uma com direito a um voto no Congresso.

Um Congresso Extraordinário pode ser solicitado por um quinto das associações — o equivalente a quarenta e três membros. A Uefa reúne cinquenta e cinco federações, mas precisaria transformar sua indignação pública em uma iniciativa política formal.

Outra possibilidade seria uma renúncia, caso Infantino entendesse que perdeu sustentação suficiente para continuar. Também existe o caminho eleitoral: o dirigente já anunciou que pretende disputar novamente a presidência em março de dois mil e vinte e sete.

Segundo a Reuters, Victor Montagliani, presidente da Concacaf, aparece como possível adversário. Uma candidatura alternativa transformaria a eleição em uma disputa de verdade, algo que Infantino não enfrentou em suas duas últimas reeleições.

O apoio fora da Europa será decisivo

Embora tenha sofrido uma derrota política importante, Infantino ainda possui relações construídas durante anos com federações da África, da Ásia e da América do Sul. O programa Fifa Forward, responsável por distribuir recursos às associações, tem peso considerável nessas alianças.

Para conseguir afastá-lo, seus adversários precisarão formar uma coalizão que ultrapasse as fronteiras europeias. Uma condenação da Uefa produz enorme repercussão, mas não garante votos suficientes dentro do Congresso.


O que pode acontecer agora?

Os próximos movimentos serão fundamentais. Uefa e Concacaf devem pressionar por uma investigação independente, mudanças na governança e explicações sobre quem participou da elaboração do projeto.

Também será necessário observar se federações que haviam prometido apoio à reeleição de Infantino retirarão suas assinaturas e apoiarão outro candidato.

O projeto bilionário foi cancelado, mas deixou uma pergunta que continuará movimentando os bastidores: Infantino ainda possui força para comandar a Fifa ou seu recuo marcou o começo do fim de sua presidência?


Transparência editorial :  Esta matéria foi produzida com base em comunicados oficiais da Fifa, Uefa e Concacaf, além de informações publicadas pela Reuters e pelo ge. Os fatos foram apurados até dois de agosto de dois mil e vinte e seis. Articulações de bastidores e possíveis candidaturas ainda podem sofrer mudanças.

Aviso de afiliados: este conteúdo não contém links de afiliados.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog